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Cereja do bolo

  • Foto do escritor: Maria Nilda de Carvalho Mota
    Maria Nilda de Carvalho Mota
  • 3 de mar.
  • 2 min de leitura

Sobre o capitalismo e a coisificação das relações amorosas 

Dinha é poeta, pesquisadora, editora independente e doutora em Literatura. Integrante co-fundadora das Edições Me Parió Revolução


Temos visto muito conteúdo em redes sociais em que, por um lado, mulheres exigem serem bancadas por homens, afinal, como bonecas de plástico barato e tóxico, elas gastam seu tempo e dinheiro se arrumando para sair com seus provedores.

Na mesma lógica mercantil, homens cobram de suas parceiras a  melhor performance estética e sexual,  em troca de pagarem as contas,  de bancarem o rolê.

Isso, e mais os estelionatários afetivos que exploram financeiramente suas companheiras, oferecendo sexo duvidoso em troca.


Em todos os casos, o sexo, o afeto e, principalmente, as pessoas envolvidas equivalem somente a uma MERCADORIA. Por isso têm a necessidade de ostentar beleza, autocuidado (excessivo e discutível) e grana.


Mulheres que pensam assim se consideram produto valioso. Quem as quer tem que gastar bastante.

Homens, por sua vez, sentem-se poderosos, cidadãos plenos, pois, no capitalismo, cidadania e consumo são equivalentes: um não existe sem o outro.

Obviamente que nada disso é novidade. Há séculos que casamentos e demais relações afetivas são meios de lucrar, de controlar e impedir que seres considerados como inferiores ascendam socialmente,  ou mesmo que tenham seus direitos efetivados.


Mas essa nova roupagem, os novos meios de se dizer as mesmas coisas de sempre me dão uma puta vergonha. Vergonha de ser contemporânea a esse modo de agir e de pensar.


Da minha parte, só quero estar com quem me veja como ser humano, na minha especificidade de mulher negra, favelada, nordestina, mãe e bissexual. 

Se eu quiser sair com alguém, nunca, jamais, vou fazer unhas, cabelos e sobrancelhas (acreditem, já nasceram feitos). Não vou me sujeitar a procedimentos estéticos dolorosos e/ou caros.

Até porque essas sangrias eu topo apenas como investimento de trabalho. 

Quem quiser sair comigo precisa enxergar minha beleza na sua imperfeição e saber que se um dia me verem enfeitada como um bolo é porque estou lá a trabalho e, mesmo nesse caso, baby, nesse bolo eu sou, no máximo, a cereja.



 
 
 

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